Fichamento e brevíssimos comentários de Trabalho Imaterial

Trabalho Imaterial – Segundo Capítulo – O Ciclo da Produção Imaterial

Lazzarato e Negri

Fichamento com brevíssimos comentários por Bruno Tarin

 

p. 43 – “O ciclo da produção imaterial nos mostra imediatamente o segredo da produção pós-taylorista (vale dizer que a comunicação e a relação social que a constituem tornam-se produtivas), é interessante verificar como estas novas relações sociais enervam também a indústria e os serviços. E como eles obrigam a reformular e reorganizar também as formas clássicas da “produção”.”

 

p.43 – A economia pós-industrial foca no final do processo de produção: na venda e relação com o consumidor. As economias industriais ao invés disso focam no montante do produto e no controle dos mercados de matérias-primas.

 

p. 43: Economia pós-industrial “se volta sempre mais para a comercialização e financeirização do que para a produção. Um produto antes de ser fabricado deve ser vendido”

 

p.43/44 – “Esta estratégia se baseia sobre a produção e o consumo de informação. Ela mobiliza importantes estratégias de comunicação e de marketing para reapreender a informação (conhecer a tendência do mercado) e fazê-la circular (construir um mercado).”

 

p. 44 - “Parece então que a mercadoria pós-industrial é o resultado de um processo de criação que envolve tanto o produtor quanto o consumidor”.

 

p. 45 – Falando sobre o setor de serviços, relação back-office vs front-office: “Existe, portanto, um deslocamento de pesquisa humana em direção ao exterior da empresa”

 

p.45 – Trabalho Imaterial propriamente dito: produção audiovisual, moda, publicidade, softwares, gestão de território etc. “São definidas através da relação particular que a produção mantém com o seu mercado e os seus consumidores.”

 

p. 45 - “O trabalho imaterial se encontra no cruzamento (é a interface) desta nova relação produção/consumo. É o trabalho imaterial que ativa e organiza a relação produção/consumo. A ativação, seja da cooperação produtiva, seja da relação social com o consumidor, é materializada dentro e através do processo comunicativo”

 

p. 46 - “A particularidade da mercadoria produzida pelo trabalho imaterial (pois o seu valor de uso consiste essencialmente no seu conteúdo informativo e cultural) está no fato de que ela não se destrói no ato do consumo, mas alarga, transforma, cria o ambiente ideológico e cultural do consumidor. Ela não reproduz a capacidade física da força de trabalho, mas transforma o seu utilizador”

 

p.46 - “A publicidade e a produção da “capacidade de consumir, do impulso ao consumo, da necessidade de consumir” transformam-se num “processo de trabalho”.

 

p.46 - “O trabalho imaterial produz acima de tudo uma relação social (uma relação de inovação, de produção, de consumo) e somente na presença desta reprodução a sua atividade tem um valor econômico”.

 

p.46 - “Se a produção é hoje diretamente produção de relação social, a “matéria-prima” do trabalho imaterial é a subjetividade e o “ambiente ideológico” no qual esta subjetividade vive e se reproduz. A produção da subjetividade cessa, então, de ser somente um instrumento de controle social ( pela reprodução das relações mercantis) e torna-se diretamente produtiva, porque em nossa sociedade pós-industrial o seu objetivo é construir o consumidor/comunicador.”

 

p.47 - “O fato de que o trabalho imaterial produz ao mesmo tempo subjetividade e valor econômico demonstra como a produção capitalista tem invadido toda a vida e superado todas as barreiras que não só separavam, mas também opunham economia, poder e saber. O processo de comunicação social (e o seu conteúdo principal: a produção de subjetividade) torna-se aqui diretamente produtivo porque em um certo modo ele “produz” a produção”

 

p.48 - “Nossa hipótese é que o processo de produção de comunicação tende a tornar-se imediatamente processo de valorização. Se no passado a comunicação era organizada, fundamentalmente, por meio da linguagem (a produção ideológica, literária/artística e as suas instituições), hoje ela, investida pela produção industrial, é reproduzida por meio de formas tecnológicas específicas (tecnologia de reprodução do saber, do pensamento, da imagem, do som, da linguagem) e por meio de formas de organização e de management, que são portadoras de um novo modo de produção.”

 

p.48 – A produção pós-industrial se aproxima muito da forma de produção estética/artística. Dois pontos a serem destacados nessa aproximação – Relação autor → reprodução → recepção. Na produção estética esses três momentos são caracterizados pela sua forma social (rede/relação e por se sobreporem/transversalidade) segundo ponto é que esses momentos devem ser entendido como ciclo produtivo.

 

p. 49 - “O “autor” perde a sua dimensão individual e se transforma em um processo de produção organizado industrialmente (com divisão do trabalho, investimento, comando etc.) (comentário pode-se tb fazer uma inversão e pensar o autor em rede sem comando, ou seja multidão); a “reprodução” torna-se uma reprodução de massa organizada segundo os imperativos da rentabilidade; o público (recepção) tende a tornar-se consumidor/comunicador. É neste processo de socialização/ subsunção no econômico da atividade intelectual que o produto “ideológico” tende a assumir a forma de mercadoria. Mas faz-se necessário sublinhar que a subsunção deste processo sob a lógica capitalista e a transformação dos seus produtos em mercadorias não extinguem a especificidade da produção estética; vale dizer, a relação de criação entre autor e público”

 

p.49 – Alguns pontos sobre o trabalho imaterial:

 

p. 50 – 1) “O trabalho imaterial se constitui em formas imediatamente coletivas e não existe, por assim dizer, senão sob a forma de rede e fluxo. A submissão à lógica capitalista da forma de cooperação e do “valor de uso” desta atividade não tolhe a autonomia e a indepedência da sua constituição e do seu sentido. Ao contrário, ela abre antagonismos e contradições...”

 

p.50 – 2) “Os produtos ideológicos se transformam em mercadorias, sem perder a sua especificidade, ou melhor, sem perder a capacidade de estarem sempre voltados a alguém, de serem, “idealmente significantes” e que, portanto, colocam o problema do sentido”

 

p. 51 – 3) “a recepção é um ato criativo e parte integrante do produto. A transformação do produto em mercadoria não pode suprimir este duplo processo de “criatividade”, que ela deve assumir enquanto tal e tentar o controle e a submissão (do público) aos seus valores”

 

p.51 – 4) Como o trabalho imaterial é baseado na inovação e criatividade e mantém uma dupla relação produtor/público é necessário reproduzir modos de ser, de existir, formas de vida como princípio e fundamento da própria valorização.

p.51 – Duas consequências principais: 1) Os valores são construídos sobre o imaginário social. 2) As formas de vida (coletivas e colaborativas) constituem a fonte de inovação

 

Conclusões:

 

p.51 – O que é produtivo é o conjunto de relações sociais segundo modalidades que colocam em jogo o “sentido”. A especificidade deste tipo de produção não somente deixa a sua marca na “forma” do processo de produção, estabelecendo uma nova relação entre produção e consumo, mas põe também um problema de legitimidade da apropriação capitalista deste processo. Esta cooperação não pode em nenhum caso ser predeterminada pelo econômico, porque se trata da própria vida da sociedade. O econômico pode somente apropriar-se das formas e dos produtos desta cooperação, normatizá-los e padronizá-los. Os elementos criativos, de inovação, são estritamente ligados aos valores que somente as formas de vida produzem.”

 

p.52 – “A legitimação que o empreendedor (shumpeteriano) encontrava na sua capacidade de inovação é privada do seu fundamento. Porque ele não produz as formas e os conteúdos do trabalho imaterial, do mesmo modo não produz nem mesmo a inovação”

 

p.52 – É necessário superar a noção de criatividade como expressão de “individualidade” ou como patrimônio das “classes superiores”.

 

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