Sem Tesão não há Colaboração

Texto de Bruno Tarin Nascimento

07/2010 – revisado em 9/10

Texto de Bruno Tarin Nascimento

07/2010 – revisado em 9/10

 

Sem Tesão não há Colaboração

 

Esse texto tem o intuito de explorar um pouco a questão da colaboração através de temas como Multidão, Commons, Cultura Hacker, Dádiva, Afeto e Tesão. Tentaremos demonstrar em poucas palavras todas essas idéias e como elas estão intimamente ligadas. Nossa defesa é que esses temas articulados nos apontam para modelos de produção social baseados na pluralidade e na hibridização e que podem nos auxiliar a pensar como as interfaces, ou seja, os protocolos de troca entre sistemas ou simplesmente os encontros/aproximações podem nos ajudar a pensar novos enfoques às velhas novas questões sobre as formas de colaboração e ir além levantando questões como e por que colaborar ou por que já colaboramos .

 

Para compreendermos o contexto da colaboração nas Novas Tecnologias de Comunicação e Informação e dentro de alguns grupos articulados por essas, achamos especialmente importante termos em mente as mudanças que as redes trazem e, principalmente, considerar que estamos falando de redes dentro de redes e do fim de divisões claras entre tempo livre e tempo de trabalho, entre os selvagens e os civilizados etc. Estamos, em suma, falando do fim da dicotomia para a priorização da pluralidade. Por isso julgamos especialmente importante refletirmos sobre a potência da Multidão. Como Multidão entendemos:

uma rede aberta em expansão na qual todas as diferenças podem ser expressas livre e igualitariamente, uma rede que proporciona os meios da convergência para que possamos trabalhar e viver em comum. A multidão que é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única – diferentes culturas, raças, etnias, gêneros e orientações sexuais; diferentes formas de trabalho; diferentes maneiras de viver; diferentes visões de mundo; e diferentes desejos. A multidão é uma multiplicidade de todas estas diferenças singulares, assim, compõe-se potencialmente de todas as diferentes configurações da produção social.

Remixado de HARDT e NEGRI, 2005.”

 

Visto que estamos falando de um contexto que valoriza e considera a pluralidade como dinâmica interna aos processos de produção social, como pode ser observado na definição de Multidão acima, podemos então partir para o nosso próximo ponto de apoio para a defesa de que sem tesão não há colaboração, que é a manutenção, constituição e invenção do Commons. Para este texto iremos nos ater aos Commons referentes à Cultura e a Informação mesmo que os espaços públicos, o meio-ambiente, a genética etc encontrem imbricações com a Cultura e a Informação no contexto dos Commons. Assim, como Commons nos referimos aqui aos espaços que os agentes humanos podem atuar livremente sem as restrições específicas impostas pelo Mercado ou pelo Estado como sugere Yochai Beckler (2008).

 

Se considerarmos o contexto da Multidão onde cada ponto da rede é um ponto de produção e fluxo veremos como a noção de Commons é necessário para a articulação da Multidão pois as discussões atuais sobre Commons falam também de responsabilidade, controle e organização, não se restringindo somente sobre direitos e acesso. O debate do Commons é principalmente um debate sobre as formas de organização sobre os recursos coletivos, como podem ser considerados os códigos de softwares, as produções culturais, a produção de conhecimento etc. Resumidamente, quando falamos de Commons estamos nos referindo a processos e métodos que visam garantir o acesso igualitário aos bens coletivos e que garantam, para além da dinâmica de mercantilização e privatização de tudo, o estabelecimento de relações baseadas na liberdade e na coletividade sobre a produção social. Que fique claro que não se trata de escolher entre dois pólos, o estatal e o privado, entre eficácia corporativa e colaboração, entre o interesse particular e o interesse público, entre o bem e o mal, trata-se de admitir a dimensão essencial da pluralidade e a potência da noção de comunidade.

 

Visto resumidamente as noções de Multidão e Commons podemos então ver algumas especificidades da Cultura Hacker ou o modo de vida Hacker. Ao se observar os processos de produção e organização das comunidades de software livre, regidos por uma Cultura Hacker, uma questão em especial salta aos olhos, o fato que para os Hackers mais importante que os resultados é o modelo de produção que permite a obtenção desses resultados como observa Himanem (2001). No artigo de Raymond (2000) sobre a Catedral e o Bazar vemos que a produção e organização de softwares livres se assemelha a um grande e barulhento Bazar onde as responsabilidades atribuídas a cada um são dadas pelos próprios atores, a vinculação é não contratual, ou seja, cada um pode sair ou participar no momento que lhe for mais conveniente, a presença de lideranças emergem naturalmente e de forma não hierarquizada, a revisão e a seleção das produções é feita pelos próprios atores, o ritmo de produção é dado pela disponibilidade de tempo de cada um e a contribuição é voluntária não passando na maioria dos casos por recompensas monetárias. Como pode-se observar esse modelo de produção Bazar admite diferentes tempos/agendas e aproximações/encontros e é totalmente baseado em dinâmicas colaborativas e abertas, uma forma de organização que se dá coletivamente. Uma dimensão do modo de vida Hacker que vale a pena ressaltar aqui é a relação comunitária por trás dessa Cultura. Essa relação comunitária está fortemente calcada e articulada entorno da economia da dádiva, sendo a dádiva entendida como uma relação de troca onde o bem circula em nome ou a favor do vínculo entre os atores e não somente na relação estabelecida no Mercado que se baseia na liquidação da dívida, assim a dádiva “desmonta o modelo linear da racionalidade instrumental”, Godbout (1998) e gera um sistema de “endividamento mútuo” que não busca a liquidação do vínculo entre os atores que no Mercado é representado pela liquidação da dívida. Segundo Marcel Mauss (1950), a produção na economia da dádiva não se dá nem puramente livre e gratuitamente e nem é baseada na produção e troca puramente interessada do útil, a economia da dádiva seria uma espécie de híbrido. Assim podemos constatar que na perspectiva da Dádiva não são feitas “trocas” baseadas na equivalência monetária ou na utilidade.: são estabelecidas relações, relações que se observarmos no Modo de Vida Hacker são em grande parte baseadas no Tesão que os hackers sentem em estarem conectados com outros hackers. É comum vermos hackers dizerem que participam de projetos e produzem softwares livres, dedicando seu “tempo livre” por motivos como: por conhecerem outras pessoas interessantes; por fazerem amizades; por se sentirem intelectualmente estimulados dentro de um grupo; pelo modelo de trabalho ser divertido e organizados coletivamente (sem hierarquias e não contratual); ou simplesmente por acharem que estão realizando uma atividade criativa.

 

Vamos destrinchar um pouco mais essa dimensão do Tesão para a compreensão do por que colaborar ou por que já colaboramos. Comumente vemos discursos sobre a colaboração como sendo uma habilidade em tolerar a dor ou o desprazer em função de um prazer maior que será alcançado no futuro. A ideia de sacrifício ou mesmo em algum nível a ideia de altruísmo estão baseadas nesse princípio do bem maior, da recompensa após a morte etc. Contudo, como tentamos demonstrar aqui, não podemos nos ater somente a essa visão transcendental ou utópica quando falamos de colaboração. Analisando culturas colaborativas como a Hacker vemos que em realidade o princípio do prazer está muito mais ligado as suas práticas do que ao sacrifício ou altruísmo. Para nos auxiliar nesta defesa veremos em pouquíssima palavras alguns estudos realizados por Reich e Lowen sobre prazer que apontam que existem duas funções que dominam a vida vegetativa do organismo, a expansão e a contração que adquirem sua identidade a partir da pulsação. Em seus estudos Reich traçou um paralelo entre essas funções e o sistema nervoso humano, afirmando que o movimento da periferia para o centro, seja no corpo humano seja em organismo unicelulares, estaria ligado ao desprazer e o movimento do centro para a periferia estaria associado ao prazer, ou seja a expansão está associada ao prazer e a contração associada ao desprazer, Freire (2006). Poderíamos dizer que essas pulsações num nível elementar são realizadas pela busca de alimento, sendo a expansão o movimento de ir atrás de comida e a contração o processamento desta comida, porém, existe um terceiro elemento nesta equação importante para o nosso argumento que é o Tesão. Em termos simples o Tesão seria a energia/vontade de se expandir para adquirir o alimento. Lowen formula esta equação desta maneira: A energia é necessária para produzir movimento a fim de obter comida, que por sua vez, fornecerá energia livre para mais movimentação, Freire (2006). Para nós, a importância desta visão está em percebermos que ao invés de comida podemos falar em estabelecer relações/encontros, ou seja dar, receber e retribuir informações, conhecimento, sonhos, sentimentos, afetos. Essa necessidade de estabelecer relações/encontros estaria totalmente ligada ao Tesão que seria essa vontade de expandir-se ou seja estabelecer novas e mais relações.

 

Para entendermos melhor quando falamos de encontro, tesão/desejo/afeto os estudos de Espinosa sobre a idéia de afeto são fundamentais. A ética de Espinosa não é uma ética do bem ou do poder, mas sim da potência, do virtual. Assim, Espinosa demonstra em seus textos que quando uma individualidade se encontra com outra com a qual se concilia, a potência de agir e de pensar aumenta. A potência aumenta quando temos um bom encontro. Ao contrário, quando tenho um encontro no qual minhas relações características são destruídas pelas relações características do outro, um mau encontro, tenho uma diminuição de potência. O mau é o que impede o desenvolvimento da potência, que a diminui. Para Espinosa assim, a potência de existir pode aumentar ou diminuir. Quando a potência de existir aumenta, sente-se um afeto de alegria. Quando a potência de existir diminui, sente-se um afeto de tristeza. Alegria e tristeza são sintomas, são indicações do nível da potência de existir. Alegria e tristeza, para Espinosa, são os afetos fundamentais. Deleuze, comentando Espinosa, diz que em Espinosa a questão da singularidade é central. Não existe bem e mal. Há um bom ou mau encontro singular. Espinosa almejava que tivéssemos só bons encontros e não vivêssemos ao acaso. O corpo que eu encontro se mistura com o meu, se concilia com minhas características, com as relações características do meu corpo. Cada corpo tem uma relação característica. Quando um corpo encontra outro corpo, há uma relação entre as relações características de cada corpo, um encontro singular. Quando elas podem se combinar, se conciliar, ocorre um bom encontro. Um mau encontro destrói ou busca destruir a relação característica do corpo com que se encontra, busca destruir a relação.

 

Como conclusão podemos afirmar que a potência do Tesão, do afeto, do encontro assim como a priorização da pluralidade são bases constituintes de processos colaborativos contemporâneos e podemos ir além admitindo a importante dimensão da hibridização nos processos colaborativos, pois ser colaborativo é encontrar-se no outro, transformar-se no outro ou simplesmente admitir que somos o outro sem deixarmos de ser nós mesmo, um híbrido de indivíduo e coletividade, de interesse e desinteresse ao mesmo tempo, um híbrido que na pluralidade se manifesta retirando do exterior o que nunca deixou de ser interno, pois a parte está no todo, na multidão e nesse processo de retirar, processar e devolver numa forma diferente, estabelece-se relações de criação e expansão, onde é sempre melhor ser alegre do que ser triste.

 

 

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Bibliografia:

 

Giussepe Coco – MundoBraz

 

Gilles Deuleuze – Espinosa: Filosofia prática

 

Roberto Freire – O tesão pela vida

 

Vicente Macedo de Aguiar – Software Livre e a Perspectiva da Dádiva

 

Jacques T. Godbout – O espírito da Dádiva

 

Hardt e Negri – Multidão: Guerra e democracia na era do Império

 

Organização: Silke Helfrich – Genes, Bytes y Emissiones: Bienes Comunes y Cuidadanía

 

Eric RaymondA Catedral e o Bazar